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Correspondência Aberta #4 Ana Clara Tito

Correspondência aberta é uma série de 5 conversas propostas por mim como parte da programação de encerramento do ciclo 2 do programa de residência Pivô Pesquisa, Desktop Aberto. Proponho trocas de imagens entre mim e 5 pessoas convidadas, cujo trabalho já acompanha e com quem já possui diálogo aberto. O texto foi originalmente publicado no blog do Pivô Pesquisa.


Cada pessoa convidada envia 10 imagens e recebe 10 imagens, ambos criamos uma pergunta para cada imagem recebida, a qual é respondida pela mesma pessoa que a enviou. Foram convidadas para esta troca, a curadora Ariana Nuala e artistas Ana Clara Tito, Carla Santana, Iagor Peres e max wíllà morais.


Ana Cláudia Almeida e Ana Clara Tito no apartamento em Niteroi
Vida em Niterói

Ana Cláudia Almeida: Acho que o dilema clássico do artista não herdeiro é como dar continuidade à sua prática e ainda sim pagar o aluguel. Não lembro o contexto desta foto, mas muito provavelmente estávamos trabalhando em algum freela de design da vida. Apostar nosso tempo no trabalho de arte ao invés de em nos aprimorarmos como designers é trocar o provavelmente certo (porque nada nunca é) pelo estatisticamente inviável. Ao considerar que o desenvolvimento da carreira de um artista leva muitos anos e não há nenhuma garantia real de retorno financeiro e colocar na balança também que nossas famílias batalharam um tanto para que concluíssemos nossa longuíssima graduação, na expectativa de que tivéssemos uma vida minimamente confortável, como você lida emocionalmente com a escolha que fez e todas as pressões psicológicas que isso gera? 

Ana Clara Tito: Com certeza eu demorei o tanto que demorei pra ousar (porque tem um nível de ousadia sim) a me identificar como artista também por causa de toda a incerteza que isso trás e as expectativas da minha família, que eram muitas, e também as minhas necessidades né como migrante, necessidades de me estabelecer. Eu tento ser muito honesta com meus pais e minhas irmãs sobre as minhas escolhas, sobre o que pretendo ser e fazer e o que eles não devem esperar de mim, porque não vai rolar. Acho que demorar o tanto de tempo que a gente demorou pra se formar (sete anos e meio) e as crises no meio do caminho também ajudaram a dar pistas. Tenho que ser responsável, também, nas minhas maluquices, buscar formas de equilibrar emocionalmente uma vida meio dupla mas que só sendo dupla pode se sustentar hoje. Eu já sofri muito, me julguei muito por não investir no que é mais certo, mas o sofrimento era maior quando eu fingia, que nem quando eu tava no armário, credo! Somos artistas tão interessantes, pensa o desperdício que não seria!



Prédio da Bauhaus
Bauhaus

ACT: Primeiramente kakakakakakaka gritei! Não acredito que estamos aqui mais uma vez falando de Bauhaus, como formadas na Esdi-Uerj esse é um tema sério e ao mesmo tempo piada né? Se a gente fosse montar a nossa escola de ˜artes˜ na zn (zona norte carioca), como ela seria? Eu chutaria que o prédio seria algo bem mais acolhedor que esse da foto né. Quais suas vontades e anseios para um ensino artístico hoje no sudeste?

ACA: Primeiramente que não seria em qualquer lugar da zona norte, seria em madureira que conecta a zona norte com a zona oeste, que é maior região desta cidade. Meus desejos de ensino de arte são de um ensino que dê conta de abordar técnica sem ser tecnicista, que não precise escolher entre apenas ficar brisando na teoria pra sempre, mas que também não transforme as pessoas reprodutores de Van Gogh, entende? Que estimule os estudos de composição e forma aliados a pensamento teórico não colonial. E por fim, mas mais importante, que exercite liberação.



Colação de grau, finalmente aconteceu

ACA: Postei essa imagem que você me mandou esses dias no meu instagram. Colação de grau, diploma na mão depois de 7,5 anos, cara inchada de tanto chorar por lembrar como foi difícil e por saber que acabou. A graduação em design na ESDI (UERJ) foi especialmente traumática para nós duas, talvez por para nós o deslocamento físico e cultural ser muito grande. Você saiu da sua cidade pequena, Bom Jardim, no interior da serra fluminense, para pela primeira vez vir para a capital totalmente sozinha e eu saía de Realengo todos os dias, na Zona Oeste, da minha realidade de jovem evangélica, pegava 2h de transporte público para lidar com um contexto, branco, cool, e sem noção e tato nenhum para o abismo cultural que existia ali por conta de diferenças de classe. Por fim, apesar dos pesares, o que de bom você tirou dessa experiência? Você! Kakaka

ACT: Mal ou bem, a gente conheceu pessoas legais e importantes para formação da nossa visão de mundo. Meu contato com uma prática fotográfica mais aberta, auto reflexiva, artística podemos dizer, também foi na ESDI. Conhecimentos de composição, material, experiências na “oficina de materiais” que desencadearam outras experiências na vida. Tem uma coisa na ESDI também que é essa formação ampla, não específica, mais voltada para uma reflexão do lugar do designer no mundo que acho que, se não contribuiu, pelo menos foi muito melhor do que ter feito isso em outro lugar.



Desenho em pastel oleoso sobre papel
Sem nome (unnamed), 2019

ACT: Meus pés tão pegando fogo. Seus desenhos têm relações com o tempo, o corpo e a espontaneidade que são bem diferentes do que geralmente acontece nas suas pinturas. Lembro, por exemplo, de você falando como é uma produção mais rápida, com tempo mais curto e isso também tem uma relação com espontaneidade, você acha? Consegue explanar um pouco sobre?

ACA: Tem sim uma certa espontaneidade porque não dá para voltar atrás no desenho, mas também tem exercício de composição, eu faço algumas pausas, olho, reflito sobre o caminho que está tomando e aí continuo com o movimento do corpo na folha, mas é tudo rápido mesmo, os desenhos tem um tempo muito diferente da minha pintura.



Corredor da vila da Clara
Corredor da vila onde moro

ACA: O que você tem achado de fazer trabalhos de grande formato sem ter como armazenar? O que fazer com nossos elefantes brancos? 

ACT: Essa imagem aí de cima mostra uma escultura que eu resolvi “sacrificar” e deixar ao ar livre para testar o processo de oxidação, acho válido eu contextualizar isso. A foto também mostra um contexto da minha casa, da vila onde moro que também alimenta em forma, materialidade e organização o meu trabalho. O varal da vizinha entra na minha varanda, fica preso na minha janela na real, e as roupas dela ficam penduradas sobre o corredor coletivo. Essa “contaminação” é incontrolável aqui e algo que me atrai muito. Algumas obras minhas também funcionam com contaminações, parte de uma vira ou outra ou se mantém sendo em duas instalações, algumas peças são trabalhos em si, mas também fazem parte de um complexo ou conjunto maior.

Sobre essa questão de não ter bem como armazenar trabalhos grandes, o que também acontece sim comigo, é meio que uma situação de merda né. Fazer trabalhos de grande formato é incrível, a expansão do pensamento pelo espaço, a experiência, tudo me faz muito feliz, mas é, sofremos com a questão do armazenamento. Hoje eu tento desenvolver algumas estratégias, por exemplo poder condensar e colocar as esculturas presas no teto, desmontar em pequenas partes as instalações, ter em mente que vai precisar passar por uma porta padrão, tentar pensar uma agenda de exposições que permita abrigar as obras em outros espaços… Mas ainda é um ponto bem complicado e que afeta a muito a minha produção, preciso assumir um tempo mais dilatado para proposições de grande formato e sempre e me colocar a desenvolver meu pensamento estético dentro das possibilidades que tenho.



Desenho em pastel oleoso sobre papel
Sem nome (unnamed) 2019

ACT: Barriga da baleia. Eu tô sempre me movimentando quando olho seus desenhos, me passa sempre a sensação de que tem algo acontecendo ou algo que pode acontecer e que eu sou uma dessas personagens mais observadoras, tão junto, mas só olhando. Lembro que algumas pinturas me causavam isso também e de ouvir outras pessoas falarem sobre em um curso que fizemos juntas. Como funciona pra você essa questão do movimento? Além disso, essa sua relação com linhas conversando com chapadas tão intensas, parece que foi desenvolvida quando você foi pro desenho né, mas que hoje também estão em algumas pinturas. Tô viajando? Viaja junto comigo?

ACA: Não está viajando não, como em 2019 eu desenhei muito mais que pintei, em 2020 senti vontade de incorporar um pouco do que aprendi no desenho minha pintura, mas não é muito fácil não. Existe um esforço meu para passar a ideia de movimento de fato, de fazer o olho passear pela superfície, bom saber que causa isso em você!




Porta da casa da Clara
Minha porta

ACA: Sabemos que muitas vezes a liberdade de criação está associada diretamente ao privilégio de raça, gênero e classe. Mas estamos aí, exercitando fazer as coisas sem a obrigação de justificar, embasar, qualificar pela palavra e coisas do tipo. O que fazer para se lembrar todos os dias que o discurso não é o principal?  ACT: As vezes eu esqueço disso, sou muito mental também, mas venho tentando cultivar referências que pra mim falem desse lugar da liberdade de criação dentro do meu universo, que me ajudem a criar as permissões, seja no diálogo com o mundo, seja no diálogo interno comigo, que são preciosas pra mim, que me encaminham para os sentimentos de felicidade e animação com o meu pensar/agir estético. Esse trabalho aí pendurado na minha porta eu nunca entendi bem e gosto dele assim, sendo meio aberto e inacabado, fica indo de um lugar pra outro do meu apartamento e me ajudando a pensar outras coisas e se transformando no caminho. Ultimamente ando sentindo que movimentar meu corpo e observar as crianças aqui da rua, por exemplo, me ajudam a não perder algumas coisas de vista, não perder da vista não do olho, mas das sensações né. Também tento lembrar que essa onda conceitualizante para validação do que é arte é algo muito do pensamento moderno europeu e, portanto, perigoso, gera podas, limites e violências na gente. Existe tanto pensamento foda nas nossas produções mais espontâneas né, no nosso prazer, e pensamento não é sinônimo de conceito e discurso organizado.

Aula
Aula

ACT: Grandes ensinamentos de Iole de Freitas. A gente ia pra aula como quem tivesse num susto, correndo pra encaixar na vida os desejos e saía de lá com a cabeça a mil, cheias de vontade de produzir!Sinto que essas aulas, mesmo não tendo sido muitas, foram bem marcantes pro desenvolvimento dos nossos trabalhos né. Como que essa experiência te influenciou?

ACA: Tinha a identificação extra de a Iole ter feito ESDI ainda. Nunca me esqueço dela virando pra mim e falando “Design, só o suficiente para pagar o condomínio” GRANDE conselho. A Iole faz uma coisa que eu vi pouco nos outros lugares que passei por, que é de se debruçar sobre o trabalho antes do discurso. Quem levava a obra falava se quisesse, e geralmente só depois que ela passava 1h discorrendo sobre o trabalho, isso era muito bom.

Mas acho que o que ficou de mais marcante pra mim da aula dela era como ela valoriza a relação do trabalho com o espaço, não levava em consideração o que o trabalho poderia ser em uma outra instalação ou condição diferente, mas sim como ele estava ali, naquela sala. O que faz toda diferença, porque na vida real é isso, o público não vai ver o seu trabalho a partir do que ele poderia ser Se estivesse com outra iluminação, Se estivesse conversando melhor com o pé direito, Se o acabamento fosse x ou y, ele é o que está, e a gente precisa sempre pensar nisso em todas as situações expositivas, faz parte do trabalho.



Escultura Os usos da raiva momento 7
Os usos da raiva momento 7

ACA: Quando olho para essas suas esculturas de usos da raiva não tenho como não lembrar dos aramões da Iole de Freitas. Nós tivemos aula com ela no Parque Lage, e queria saber se o trabalho dela é uma referência para o que você tem desenvolvido hoje. 

ACT: Então, em mim o que mais marcou da Iole de Freitas foi o pensamento, várias coisas que a gente ouviu e re-ouviu nas aulas que fizemos com ela no Parque Lage, aquilo me levou a lugares que em algum momento me levou a essas esculturas. Lugares mentais, lugares de percepção e relação com o meu trabalho e minhas vontades. Eu não conhecia a produção mais inicial dela até as pessoas falarem dos “aramões”. Acho que dá pra dizer que existe uma conversa, não quero ser taxativa e falar “Não, nada a ver!”, mas com outros trabalhos, com “Os usos da raiva” eu acho que não. Existe um percurso meio parecido também, de iniciar com uma experimentação muito ligada ao corpo e caminhar numa direção mais impessoal… Mas também não sei se tô super indo com destino a essa impessoalidade, somos de tempos e universos diferentes.



Pintura em papel e tecido
Sem título, 2018

ACT: Esse é um trabalho da época do ateliê em Niterói né? O que aconteceu com essa sua busca por espacialização? Sinto que estávamos as duas, cada uma a sua forma, pensando o espaço e a quebra do retângulo. Como está isso hoje em você? O que acha que esse material (é acrilon?) gerou? (Tem uma cabeça e eu não consigo não falar, contar pras pessoas, que tem uma cabeça alí, gente)

ACA: Ela continua aqui, Interesses da Continuidade é um exemplo disso. Perdi tudo que eu tinha em acrilon, inclusive essa pintura, as gatas comeram.



Parreira de chuchu
Parreira de chuchu

ACA: Nós estávamos conversando outro dia sobre como alguns trabalhos seus se assemelham com a dinâmica de se espalhar e de espessuras diferentes de uma parreira. Você sempre faz questão de falar que é do interior, e do seu contato com o contexto rural. O que você sente que trás da vida na serra para a vida e se quiser falar para o trabalho também?  ACT: Quando eu era mais nova e saía de Bom Jardim para algo em Friburgo a galera de lá às vezes chamava a gente de “terra do chuchu”. Parece que BJ produziu bastante chuchu em algum momento aí, não sei bem, sei que hoje tenho pensado nas parreiras como organizações tão bonitas!

Eu realmente amo falar que sou do interior, não dá pra eu falar que sou da região serrana quando sinto que essa é uma identidade muito amarrada a outras cidades, outras experiências que não a minha. Então eu falo que sou do interior da região serrana, de uma cidade com 30 e poucos mil habitantes, que o centro tem três ruas e que os ônibus municipais são meio empoeirados do barro das estradas. Tudo isso me formou, pro bom e pro ruim e sou muito grata. Quanto mais tempo eu fico longe, quanto mais saudade eu sinto, mais eu fico grata!

Meu trabalho hoje é muito animado pelas experiências estéticas de encontro com o mundo e com as coisas que me foram permitidas por crescer numa cidade pequena e ter esse contato com o rural. Tudo parece vivo sempre, tudo pra mim poderia ser alguma coisa viva ou útil ou curiosa. Essa é uma forma de se relacionar com o mundo que se transforma em valor pessoal, em dinâmica de encontro, na minha dinâmica de encontro com os objetos que recolho por exemplo. Talvez até o meu interesse pelo privado, pelo cotidiano, pelo rotineiro, confesso que não sei mensurar exatamente, mas sei que é forte. Hoje eu entendo que a cidade grande é realmente um lugar de muitas possibilidades de vida, mas que a cidade pequena, o contexto rural também é, só que de outras possibilidades, de outras vidas. Tem muita morte nos dois lugares e hoje o que tento é me desvencilhar e ao mesmo tempo somar tanto o lá quanto o cá. O silêncio, o não dito, o barro, correr de bicicleta pelo morro abaixo, ouvir meu tios matando o porco, pisar no sapo, as exposições agropecuárias e a dança do acasalamento, o valão em frente a escola, a enchente, comer pokan quente de sol até ficar enjoada escondida debaixo do pé, ter crises de rinite com a floração das jabuticabeiras perto de casa, passear pelo cafezal, pegar manga com bamboo. Difícil não ter alguma nostalgia, difícil esse painel de vida não estar nas minhas criações.



Sem título, 2018, performance realizada no CMA Hélio Oiticica
Sem título, 2018, performance realizada no CMA Hélio Oiticica

ACT: Por que paraste de ouvir as memórias áquaticas das pessoas? Alguma teoria especulativa pro fato da maioria das pessoas falarem de experiências de medo/morte?

ACA: Não parei, mas precisa ser natural, como o meu conhecimento do Rio Grande no natal que passei na sua cidade. Essa performance em que ficava ouvindo memórias aquáticas no CMA Hélio Oiticica e pintando a partir delas foi muito sugadora. Conversei com um monte de gente desconhecida num período muito curto de tempo, todas as conversas eram superficiais, porque eu não tinha relação com quem parava ali, não sou tão extrovertida para me colocar tanto na roda. No final também não gostei da pintura. Prefiro hoje investir no um a um, em trocas com perspectiva de continuidade.



Rio Grande em Bom Jardim, RJ
Rio Grande em Bom Jardim, RJ

ACA: Você planeja fazer mais trabalhos com barro num futuro próximo? 

ACT: Eu ando pensando sobre o que posso aprender com o barro, o que a lama é (porque ela transforma muito as coisas) o que o barranco me trouxe na minha infância e adolescência e o que ainda me trás. O barro só é, nem bom nem ruim. A lama só é, nem boa nem ruim. Então, sim, eu quero fazer um trabalho com barro, é algo que permeia o meu imaginário né, tô sempre planejando e as coisas mudam. Acho que esse ano não vai ser, mas espero que 2021 me receba laranja-terra.



Jack Whitten, Quantum Wall, VIII (For Arshile Gorky, My First Love In Painting)’, 2017
Jack Whitten, Quantum Wall, VIII (For Arshile Gorky, My First Love In Painting)’, 2017

ACT: Essas referências norte americanas na abstração são bem marcantes pra gente né. Tem uma coisa muito forte no trabalho de Witten que é essa ideia de pinturas escultóricas, de dimensões, ao mesmo tempo que ele às vezes fala daquilo que não sabemos sobre o universo e questiona os dualismos como aprisionamentos, justamente porque parece interessar a ele as outras várias coisas que se pode ser. Como essas e outras ideias de artistas norte americanos tocam as suas ideias hoje sobre a produção abstrata? Você poderia falar também sobre esse campo da pintura mais escultórica?

ACA: No início sinto que fui muito influenciada pelo expressionismo abstrato de lá. A ideia de negar o racionalismo no fazer me agrada, a gente tem uma tradição meio explicativa me parece. Mas acho que hoje estou em um lugar mais equilibrado, sei que tem um tanto de intencionalidade e de desejo de comunicação, ainda que numa perspectiva não-utilitária. E essa reflexão do dualismo bate bastante em mim, é um lugar que me incomoda muito, eu tento balancear as coisas por aqui e gosto de trabalhar com espaços que se esforçam pra isso. O Whitten é uma grande referência contemporâneazona, o cara tava aí até pouco tempo, amo o trabalho dele.


Se eu contar o título não tem graça, então tem título sim, mas é mistério
Se eu contar o título não tem graça, então tem título sim, mas é mistério

ACA: Você poderia falar um pouco sobre as relações vulnerabilidade, permissibilidade e intimidade que permeiam seu trabalho? 

ACT: Esses dias eu tava lendo Audre Lorde, como sempre hahah, e me bateu de novo essa ideia do privado ser político…

Meu trabalho tem desde o início uma relação muito forte com estados mentais, emocionais, com as sensações e a vida privada e isso vem se transformando com o tempo. Sempre me interessou muito a ideia de poder falar sobre coisas íntimas ou de criar sensações de intimidade, de um lugar onde só se é, e isso envolve um nível de se colocar vulnerável né. Tem uma foto minha de anos atrás, da época que dividimos ateliê em Niterói que eu tô nua me apoiando para olhar por cima de um muro e depois desse muro só tem um céu escuro de noite. Esse trabalho e outros dessa época eram sobre esse só ser e estar sendo de boa na minha vida íntima, eu queria entender e valorizar momentos que me pareciam tão bonitos e tão frágeis. Ao mesmo tempo, queria poder carregar algum nível de fragilidade em mim, poder performar a vulnerabilidade de forma segura. Como me permitir a vulnerabilidade que me leva a novos encontros com o que sou? Eu já me expus mais no meu trabalho, hoje estou numa onda mais indireta das coisas. Esse aí da foto, por exemplo, tem a imagem de um colchão antigo meu. O colchão tem algumas manchas que para mim dizem de acontecidos que me interessam. Eu cortei o forro superior do colchão e guardei, como aparece ali no canto da foto. Estes forros são lindos! Sempre achei uma graça. A cama é também esse lugar de conforto, acolhimento, preguiça. Existe ali, na cama e no quarto, algo que facilita esse se permitir e a vulnerabilidade, algum nível de proteção, não sei bem. Me interessa pensar o que a gente não mostra, mas o que se permite, como se permitir, como acolher, e venho pensando isso de e com diferentes formas nos últimos anos.



Sem Título, 2019, Afresco comissionado para a exposição Habitar Liberdades no Solar dos Abacaxis. Foto de Renato Mangolin
Sem Título, 2019, Afresco comissionado para a exposição Habitar Liberdades no Solar dos Abacaxis. Foto de Renato Mangolin

ACT: Gosto um tanto desse trabalho e do registro na noite. Você gostaria de ter outras experiências com paredes? Essa ainda era uma parede bem viva né, cheia de marcas, rachaduras e texturas, com uma memória do tempo que geralmente é adicionada depois do seu processo de pintura (tipo o elefante branco lindo maravilhoso) e que aí nesse trabalho veio antes. E aí?

ACA: Amo que todas as minhas amigas chamam Piracema de Pirapora de Davi de elefante branco (risos). Quem lê já deve ter percebido o lugar que a coisa ocupa na minha vida! Muito carinho por aquele elefante. Sobre paredes, não sei, gostei de fazer um afresco, gostei mesmo, mas acho que isso não estava relacionado a ser em uma parede e sim ao processo com a cal e o pigmento puro. Também ajudou muito a superfície já ter a história dela, foi bem legal trabalhar a partir de um ponto já estabelecido. Só que uma parede é uma coisa muito fixa, você não acha? Acho muito definitiva, estática, daí tenho dificuldade com paredes, mesmo que a pintura seja efêmera, como foi o caso da pintura no C.M.A. Hélio Oiticica. Ainda sim não me negaria a fazer outra vez caso aparecesse outra oportunidade e tivesse uma estrutura de trabalho legal.

Sem título (fuga), 2020 foto escultura (detalhe)
Sem título (fuga), 2020 foto escultura (detalhe)

ACA: Sempre escuto você falar que está mais interessada na fotografia como ideia, e no campo das discussões teóricas que permeiam a linguagem, do que na técnica em si. O que mais te atrai no pensamento fotográfico?

ACT: Os problemas, são muitos! A fotografia como um campo de ideias e valores é um mar de problemas! Hahaha

Também tem uma mágica, um jeito de ver que é tão particular e que me leva a pensar sobre como ver e como fazer ou não fazer ser visto. Para mim, a fotografia faz o olhar e o observar algo consciente, você fica mais consciente do que congela com a mente porque justamente começa a criar congelamentos-imagens e aí mora o perigo né, porque a fotografia depois se passa por algo tão  “natural”, tão cru, quando não tem nada de cru no ato de fotografar e enquadrar o mundo. O olho é muito cruel. E o olho funciona a partir do que a mente carrega.


Nos últimos anos o que tem me prendido são as particularidades estéticas da fotografia de serem “comuns” e a minha constante pergunta: é possível criar imagens fotográficas que não constatem, que não gerem um estatuto de verdade natural sobre aquilo que registram? Como falar dos artifícios da fotografia? Como evidencia-los? Como romper com o uso sórdido, moderno e redutor desses artifícios que também podem ser possibilidades. Então venho nessa busca por imagens problemas, imagens estranhas, abertas, que não contém, que não aprisionam, e que saiam de si para que possam refletir sobre si mesmas ao mesmo tempo que se desvencilhar de algumas amarras do fotográfico.



Registro na exposição Quimeras. Na foto estão Alex Reis, Ana Cláudia Almeida, Carla Santana, Yhuri Cruz, Ana Clara Tito, Jean Carlos Azuos e Laís Amaral
Registro na exposição Quimeras. Na foto estão Alex Reis, Ana Cláudia Almeida, Carla Santana, Yhuri Cruz, Ana Clara Tito, Jean Carlos Azuos e Laís Amaral

ACT: A gente foi e é muito feliz, na moral! Essas imagens me dão uma saudade e uma vontade de futuro!  Essa foto registra as pessoas envolvidas na organização da exposição no nosso apartamento, em Niterói mas me lembra muito umas fotos que a gente tirou na abertura da exposição Noite, no CMAHO: o sorrisão, as poses engraçadas, a celebração. É tão bom estar junto! A gente sempre quer festa né, amo.  Se a gente hoje fosse fazer outra expo nesse apartamento qual nome você daria?

ACA: Gente, porque vocês me perguntam coisas de nomes rsrsrsrs? Todo mundo me perguntou isso, parece que vocês não me conhecem e não sabem que eu sou péssima em nomear, se depender de mim vai ser tudo sem nome! Mas essa exposição, a primeira que Trovoa fez, na nossa casa mesmo, foi tudo de bom, viva Quimeras, os encontros e que não percamos o hábito de celebrar!




Escultura de Ana Clara Tito
Sem título, 2020

ACA: Os fragmentos que você trás nas instalações que faz são vestígios de que? 

ACT: Do que foi, do que se viveu, do que ainda pode ser. Uma arqueologia quase. Eu penso que os fragmentos não são vestígios mas carregam vestígios, são esses fragmentos que me interessam: os que mostram algum tipo de dentro, que tenham outros materiais além da massa, coisas que só se revelam quando o prédio do qual faziam parte é quebrado, demolido. Ando pelos lugares a procura dessas relações do dentro. Esses fragmentos são pedaços de corpos que abrigaram outros corpos, vidas, ação, funções. Nas minhas instalações trago fragmentos recolhidos pela cidade mas também fragmentos que eu crio no ateliê. As vezes eu me sinto como se estivesse dissecando o mundo e encontrando outros mundos, como se pegasse um braço, abrisse, virasse do avesso e encontrasse ossos, tecidos estranhos, órgãos, matérias de todo tipo e isso me atrai. O que tem dentro, o que acontece dentro me atrai.  E pensar essas coisas que acontecem dentro fisicamente em relação ao que a gente coloca “separado” como emoções e sensações. É fácil pensar relações entre corpo biológico e corpo construção, corpo ferro, concreto e pedra que a gente constrói a partir de dinâmicas do nosso próprio corpo carne e que quando vêm abaixo revelam. Tipo ansiedade, raiva, vômito.


Solange Knowles
Solange Knowles

ACT: Óbvio! A rainha do twerk classy chic conceitual kakakaka

Como essa musa te inspira? Qual fase da Solange você se sente hoje?

ACA: Amiga, não me sinto mais Solange hoje, ela é classy demais para mim, um pouco mais blasé do que eu projeto ser no meu futuro. Mas Solange me ensinou muito sobre maciez em momentos passados, viu? Gosto dela, mas tem algo nesse espírito de hiper elegância que não bate mais tanto em mim, hoje eu só quero ficar de boa.



Escultura de Ana Clara Tito. Sem título, complexo, 2020
Sem título, complexo, 2020

ACA: Eu sei que você tem questões com a relação os trabalhos com espaço, é difícil quando não são todos os lugares que abraçam a composição. Como é o espaço ideal para receber uma instação sua?

ACT: Hoje o espaço ideal são os cantos, lugares com pé direito não muito alto, espaços pequenos a médios, quebrados e com quinas, diferenciações.


Ana Clara Tito (Rio de Janeiro, 1993), é graduada em Desenho Industrial pela Esdi-UERJ, com parte dos estudos na York University, em Toronto. Em 2019, participou do Programa Formação e Deformação 2019, da EAV Parque Lage. Integrou exposições coletivas no Valongo Festival Internacional da Imagem, Galpão Bela Maré, Ateliê da Imagem, Espaço Breu e Solar dos Abacaxis. Realizou exposições individuais da Fundação de Artes de Niterói e no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. É também fundadora-integrante do movimento Nacional Trovoa. Nascida em Bom Jardim, RJ, em sua pesquisa utiliza do corpo e seus estados emocionais/mentais como ponto de partida e de chegada. Seus trabalhos cruzam fotografia, performance e instalação, integrando a matéria como corpo agente e explorando as relações entre material e imaterial. Pensa sua prática artística como desenvolvimento de um modus e de um universo baseado em permissão e possibilidade, movimentando: intimidade, privado, corpo-construção, inconclusão, não linearidade, complexidade, instabilização, não cabimento, não cessamento, não contimento.

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