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Clarissa Diniz para Programa Pivô Pesquisa

Texto escrito no contexto da residência do programa Pivô Pesquisa, São Paulo, em setembro de 2020






Em sua aventura formal, a pintura de Ana Almeida convoca interesses e procedimentos habitualmente protagonistas de outras linguagens. Por isso, em que pese que possamos falar das cores, das manchas ou da fatura de sua pintura, para dela nos aproximarmos devemos acionar também um repertório que passa pelo corpo, pelo tato, pela matéria. Do mesmo modo, ainda que sua pintura se faça no e como espaço, podemos igualmente evocar o tempo e sua performatividade para compreendê-la, uma vez que tudo que nela se dá a ver deriva de um intenso – e quase sempre longo – processo de transformação.


Não se trata de uma metamorfose de signos, tampouco das transfigurações características ao ato de pintar. Antes, tem-se um processo construtivo forjado físico-quimicamente entre as propriedades das matérias intimadas para as pinturas, suas implicações gravitacionais e suas agências. É ao precipitar e forçar relações entre essas materialidades, seu próprio corpo e os ambientes que lhes são constitutivos que Ana Almeida pinta.


Nesse sentido, para a artista, pintar é transformar: vocação para o movimento que se radicaliza quando Ana pinta sobre a água ou sob a chuva, quando produz pinturas para dialogarem com projeções de vídeos ou quando transfaz pinturas antigas, desafiando as tradições e as economias da conservação ao friccioná-las com a abundância infinitiva do que está sempre a se formar.




Clarissa Diniz (Recife, 1985) é curadora, escritora e professora em arte. Graduada em artes plásticas pela UFPE, mestre em história da arte pela UERJ e doutoranda em antropologia pela UFRJ, é atualmente professora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Entre 2006 e 2015, foi editora da revista Tatuí. Publicou inúmeros catálogos e livros, a exemplo de Crachá – aspectos da legitimação artística (Recife: Massangana, 2008) e Gilberto Freyre (Rio de Janeiro: Coleção Pensamento Crítico, Funarte, 2010; em coautoria com Gleyce Heitor). Tem textos publicados em revistas, livros e coletâneas sobre arte e crítica de arte brasileira, como Criação e Crítica – Seminários Internacionais Museu da Vale (2009); Artes Visuais – coleção ensaios brasileiros contemporâneos (Funarte, 2017); Arte, censura, liberdade (Cobogó, 2018), dentre outros.


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